Alphorria: racismo e machismo

No dia 5/04/2014, ocorreu uma tradicional festa do curso de Direito da PUC realizada pela Atlética: Alphorria- a libertação dos bixos. O problema da festa começa pelo nome. Segundo a definição do dicionário Houassis, alforria é um substantivo feminino que significa: 1 liberdade que se concede ao escravo; manumissão; 2 por extensão de sentido: qualquer libertação, emancipação. Em um país como o Brasil cujo passado é marcado pela escravidão dos negros e apresenta uma herança racista enraizada na sociedade, o termo alforria costuma ser intimamente ligado com o ato de libertação dos escravos negros. Usar o termo alforria brincando, é debochar de uma passado que ainda ecoa na sociedade, como a estrutura social presente, a exclusão socioeconômica, a violência pelo Estado e sociedade contra os negros já que são vistos muitas vezes como bandidos, malandros e sem caráter. Calouros(as) são nomeados pejorativamente com o termo “bixo”, que era a visão do homem branco sobre o negro que perdurou por muitos séculos, e quando quer se igualar bixo a escravo, existem duas implicações: 1ª) dá de alguma forma o direito dos(as) veteranos(as) de fazerem o que quiser com os(as) calouros(as) a partir do momento que os(as) veteranos(as) passam a achar que os(as) calouros(as) são seus escravos, logo são sua propriedade e assim podem fazer o que bem entender com eles(as). 2ª) Brincar de dono(a) de escravo, desmerece o sofrimentos dos escravos, que foi algo real, absurdo, violento e desumano além de desrespeitar sua memória. Assim, a festa Alphorria, que se apropria de um termo tão delicado na história do Brasil e dos Direitos Humanos, e que tem como proposta a libertação dos ditos bixos, vistos como escravos, a festa é racista e de temática abusiva. Como um curso de Direito pode ter como uma de suas festas tradicionais uma que apresenta em seu próprio nome o racismo pungente em nossa sociedade e universidade? Será que não está na hora de mudar o nome da festa, o apelido dos(as) calouros(as) e numa forma de acabar com o preconceito velado em nosso dia-dia?

Não bastasse a problemática com o nome e a proposta da festa, a última edição apresentou episódios preocupantes envolvendo a relação da sociedade (em especial os homens) com as mulheres, dias depois que o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) lançou dados extremamente gritantes e que geraram grande repercussão: 26% das pessoas entrevistas acreditam que mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas e 58% das pessoas acham que “se as mulheres soubessem se comportar”, aconteceriam menos estupros. É o corpo da mulher sendo visto como objeto, é a mulher sendo vista como um ser que deve ser passivo diante de tudo e que deve saber se comportar (será que comportar é sinônimo de não expressar seus desejos, emoções, não ter liberdade sobre seu próprio corpo e ser obediente aos homens?). Vale a pena lembrar os casos recentes dos encoxadores no transporte público que se aproveitaram do aperto para se esfregarem nas moças, usando o corpo delas  para o prazer deles sem autorização, o que configura estupro: de acordo com o Código Penal Brasileiro em seu artigo 213 na redação dada pela Lei nº 12.015, de 2009, onde o estupro é definido como: “constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso.” E então fica a pergunta: Qual a diferença entre a encoxada no metrô e a encoxada em festas?

Iniciaremos os episódios e relatos do evento com as “atrações” : duas mulheres, uma de anjo e a outra de diabo, dando tequila na boca das pessoas com fantasias super curtas e fetichistas além de outra que em determinado momento entrou no palco, fez um strip-tease e ficou passando chantilly pelo corpo, onde até alguns homens chegaram a lamber enquanto outros se regozijavam filmando e tirando fotos. Fica a pergunta: era uma festa para divertimento de todos(as) ou para divertimento masculino heterossexual?

Diante da proposta da festa e do ambiente, muitos homens acharam que as convidadas eram objetos sexuais e de entretenimento masculino: muitos relatos de encoxada, de passadas de mão e apalpadas na região da vagina e da bunda, tentativas de beijos pelo uso da força, insistência mesmo com a moça falando que não queria nada, agressão física e verbal e até perseguição. Segue trecho de um dos relatos enviados ao Coletivo: “Juro que me surpreendi com a insistência e ousadia de alguns rapazes. Não chegavam de boa, trocando uma ideia e pá, mas já apalpando, encoxando mesmo. Me chamou a atenção a maneira como faziam assim. Uma hora, inclusive, fiquei puta da vida porque um moleque chegou em mim e os amigos começaram a cerca, para eu não conseguir sair.”

Em relação aos preocupantes casos de agressão física, o Coletivo Yabá ficou sabendo por uma das vítimas e por testemunhas, três casos: um onde o a moça não quis ficar com o rapaz, e então ele jogou um copo de cerveja em seu rosto. Em outro, uma moça não quis ficar com o rapaz e ele a segurou com tanta força para ela não sair enquanto a coagia, que chegou a deixar o braço dela roxo. O terceiro, foi um rapaz que segurou a moça pelo braço e quando ela o empurrou para ele ir embora depois de pedir isso muitas vezes, ele deu um tapa no braço dela.

Já sobre o caso da perseguição que também envolveu agressão verbal, segue o relato da própria vítima e uma reflexão da mesma: “aconteceu de dois rapazes ficarem próximos de mim e de minhas amigas e começarem a xingar, não sei qual de nós, de “gorda”. Sério que em uma festa de uma faculdade de direito, uma das melhores do país diga-se de passagem, “gorda” é usado como xingamento??? Eu suspeitei que fosse para mim, porque pode ser que fossem alguns meninos nos quais eu dei fora e fui bem grossa. Apesar de ter ouvido várias vezes os xingamentos, optei por não reclamar com os indivíduos, porque não sabia ao certo qual tipo de atitude eles poderiam ter. Eles pareciam bem dispostos a humilhar, e fiquei com receio de partirem para a agressão física. Além disso, eles seguiram a gente na festa durante uma meia hora, e isso me preocupou (embora não tenha comentado diretamente disso com todas as meninas, para não deixá-las assustadas, e também para não inflar o ego desses escrotos, que são do tipo que sentem prazer em ver que estão causando mal ou desconforto à alguém). Então, nesse caso, diante das circunstâncias, simplesmente ignorei-os, até eles decidirem por conta própria parar de xingar e de seguir a gente.”

Sobre a performance do chantilly, além de muitas mulheres terem ficado constrangidas e chocadas, homens também ficaram, alegando que Atlética exagerou e não teve noção. O trecho a seguir é de um dos relatos dados ao Coletivo: “Eu me senti muito incomodada! No começo eu não tinha certeza do que ela ia fazer, mas quando ela começou a tirar a roupa totalmente, e colocar chantilly nas parte mais intimas sabe, foi horrível! Sério, e ainda os caras iam lá na frente lamber! Achei uma cena realmente desnecessária, me senti super constrangida… Não precisava disso!” .

A partir de tal panorama, concluímos que além de apresentar uma ideologia RACISTA a festa Alphorria é MACHISTA, com as mulheres sendo objetificadas, abusadas, constrangidas e vistas até como atração. Tais ocorrências da festa são reflexo de uma sociedade onde:
– Cerca de 70% das mulheres sofrem algum tipo de violência no decorrer de sua vida. As que tem entre 15 a 44 anos correm mais risco de sofrer estupro e violência doméstica do que de câncer, acidentes de carro, guerra e malária, de acordo com dados do Banco Mundial.
-Uma mulher é estuprada a cada 12 segundos no Brasil;
– Entre o período de 2009 e 2011, o Ipea registrou 16,9 mil feminicídios. No período de 2001 à 2011, houve cerca de 50,000 mil casos dessa espécie, cuja a incidência de autoria em 40% dos casos recaem sobre parceiros íntimos: a Lei Maria da Penha não reduziu os números, apesar de uma leve queda em 2007 (início da vigência da lei).

Gostaríamos também de lembrar, que em uma festa machista e heteronormativa, as pessoas LGBTTT não se sentem confortáveis para frequentá-las já que é mais comum em uma festa assim, lésbicas serem vistas como um fetiche, gays serem debochados/violentados por serem ligados muitas vezes ao “o que é ser” feminino e pessoas trans* serem alvo de piadas/ violência.
Sendo assim, o Coletivo Yabá convida a Atlética para um diálogo sobre as tradicionais festas da PUC, visando que estas sejam mais prazerosas e aproveitosas por todos(as), respeitando cor de pele, gênero, identidade de gênero e orientação sexual, por uma PUC com menos preconceito, menos repressão, mais justa e mais colorida.

Nota do Coletivo Feminista Yabá sobre o aplicativo Lulu

Recentemente, surgiu um aplicativo denominado “Lulu”, no qual as mulheres, numa falsa situação de “vingança”, motivadas pelo histórico de opressão e submissão por elas vivido- em que se inclui, por exemplo, a Ditadura da Beleza – tiveram a oportunidade de atribuir qualidades ou defeitos, bem como dar notas, aos homens, diante de sua imagem exposta no referido aplicativo.

Este gerou polêmica no universo das mulheres e nós, enquanto Coletivo Feminista Yabá, sentimos a necessidade de nos posicionarmos, tendo em vista que a objetificação do corpo é um assunto que nos provoca intimamente, já que é comum à realidade feminina a opressão da sua sexualidade, a pressão em relação a padrões de beleza estereotipados, além de uma “conduta moral” imposta como correta às mulheres, numa sociedade machista e patriarcal.

Há aqueles que defendem o Lulu e que argumentam que este se torna uma reparação histórica de toda a opressão sofrida pelas mulheres e que, por meio do aplicativo, elas teoricamente se empoderariam e tornariam, de certo modo, as opressões iguais. A fala em si já ilustra o conceito do aplicativo, defendido por alguns: é uma tentativa de reparação histórica via opressão reversa, e que, muito pior, pode se voltar de uma forma muito pior contra nós, mulheres.

E foi o que, de fato, aconteceu. Pouco tempo depois da criação do aplicativo, foi elaborado um projeto “reverso” e que será lançado em breve: o Tubby, que funciona do mesmo modo que o outro, porém, agora, os alvos são as mulheres. Este vem de forma duplamente violenta, humilhante e extremamente machista. É usado a desculpa de ser uma “revanche” contra as mulheres, que apesar de ter sofrido essa opressão durante toda a história, merecem sofrer um pouco mais.

Nós acreditamos que ambos Lulu e Tubby surgem como modo de perpetuação do machismo e, principalmente, de ilustrar que a opressão NÃO se acaba com uma opressão reversa. Ela deve ser eliminada, em quaisquer sentido, para que não haja subjugação de gênero. Nós, do Coletivo Feminista Yabá, repudiamos tais aplicativos, que perpetuam o machismo, a relação de gêneros como uma relação de opressão e desigualdade, além de reafirmar a heterossexualidade como regra. Uma sociedade será igual e justa quando não houver distinção de tratamento por gênero, e muito menos sua dominação.

Na PUC-SP: oprimir a mulher é uma opção!

Há muito vem se instalando nas Universidades uma única cultura de festas, propagandeada principalmente por meio de fotos de mulheres sensualizadas e convidativas, que geram a ideia de que além de aproveitar as bebidas e as músicas, os convidados também podem desfrutar dos corpos das mulheres presentes.

Sabemos que esta cultura é uma expansão das práticas machistas presentes na grande mídia, como propagandas de cerveja e programas de televisão. Também sabemos que os convites e as formas como as festas se apresentam refletem em como se dará as próprias festas. Não é raro casos de abusos sexuais: beijos forçados, passagens de mão, cantadas extremamente ofensivas. Casos de estupro e violência também acontecem.

As práticas dos estudantes são coincidentes com a publicização das festas: enxergam as mulheres como uma mera atração, e não como pessoas autônomas, que estão na festa para aproveitá-la como os demais convidados.

Esta cultura, portanto, é repressiva e opressora, indo na contramão do objetivo de construção de um convívio social dentro da universidade. A universidade deve servir para a emancipação humana e consequente evolução social.

Na PUC-SP, existe uma festa que agrava de forma explícita as problemáticas expostas acima. É denominada “Cabaret” e tem como temática a prostituição.

As mulheres devem ir de prostitutas e os homens de cafetões. A ideia é as/os estudantes “brincarem” com o tema da sexualidade. O problema é que esta brincadeira ignora e naturaliza uma realidade muito cruel: a objetificação do corpo da mulher que, muitas vezes, sem opções de sobreviver, subordina-se a uma profissão extremamente precarizada e violenta. Além disso cristaliza a sexualidade heteronormativa, não havendo espaço para as pessoas LGBTT.

Ser contra a Cabaret é posicionar-se contra a visão de que sexo é mercadoria. É posicionar-se contra a cultura de mercantilização de nossos corpos. É ser a favor de termos liberdade sexual todos os dias e não restringi-la a uma festa. É ser a favor das minorias.

Porém, este ano, o C.A 22 de Agosto, que havia optado por alterar minimamente os moldes da festa, acabou de soltar uma nota voltando atrás e recolocando a opção de realizar uma festa opressora em um plebiscito que estão organizando, entendido como a saída mais democrática. Antecedendo o plebiscito, ocorreram dois debates, que, entretanto, foram pouco divulgados, acarretando no esvaziamento destes, fazendo com que a discussão não fosse levada para a maior parte do corpo estudantil.  

Enquanto feministas, entendemos que debates sobre machismo devem ser feitos cotidianamente para conseguirmos avançar em direitos iguais. Assim, não é apenas com uma consulta que as/os estudantes vão refletir sobre o tema ou debatê-lo. Vale lembrar, que em nenhum momento ao longo do ano, a gestão do Centro Acadêmico incentivou debates sobre machismo, construiu atividades neste sentido, nem se posicionou sobre datas importantes como 8 de Março (Dia Internacional da Mulher), 28 de Junho (Dia Mundial do Orgulho LGBT), dia 25 de julho (Dia Latinoamericano e Caribenho de Luta da Mulher Negra) não sendo apenas simbólico que este plebiscito ocorra na semana do dia 29 de Agosto (Dia Nacional da Visibilidade Lésbica).

Além disso, as problemáticas presentes na omissão de um posicionamento por parte do C.A. e o pseudo debate universitário são enormes. O plebiscito dá aos estudantes a opção de legitimar perante o corpo estudantil uma festa machista, entendendo válido que a posição da maioria seria o democrático.

Vivemos em uma sociedade em que desde crianças nos ensinam a dicotomia e obrigações entre o sexo masculino e feminino. Cotidianamente somos bombardeados com informações e mandamentos sexistas, em que rifam nossos corpos assim como os padronizam. Vale ressaltar, que não é com apenas um debate que iremos desconstruir o machismo presente em nossas vidas desde que nascemos.

Diariamente mulheres são estupradas quietas e, quando não se calam, são culpabilizadas. Todos os dias mulheres morrem por conta da violência doméstica e falta de atendimento médico após abortos clandestinos. Devemos deixar claro: o machismo mata, o machismo destrói vidas, por isso, nunca deve ser visto como uma opção. Rifar um debate tão caro nos dias de hoje, para não se posicionar, é um ato covarde, é despolitizar um ambiente que deveria servir principalmente para a política estudantil.

Desta forma, o Coletivo Feminista Yabá posiciona-se contrário à implementação de um plebiscito sobre qualquer festa ou prática machista, assim como reconhece a importância de um posicionamento aberto do C.A. 22 de Agosto sobre estas práticas, para que possamos, assim, avançar na pauta de mulheres, construindo uma sociedade livre e sem machismo.

Assinam essa Nota:

Coletivo Feminista Yabá – Direito PUC-SP

Construção Coletiva – Direito PUC-SP

Professora Silvia Pimentel – PUC-SP

Professora Eliana Vendramini – PUC-SP

Kenarik Boujikian, presidenta da Associação Juízes para a Democracia, turma do Direito/PUC de 1984

Amelinha Teles – militante histórica feminista membro da União de Mulheres de São Paulo

Centro Acadêmico Benevides Paixão – PUC-SP

Centro Acadêmico Clarisse Lispector – PUC-SP

Centro Acadêmico Leão XIII – PUC-SP

Frente Feminista da PUC-SP

Coletivo Feminista Lindoneia – PUC-SP

Coletivo Feminista 3 Rosas – PUC-SP

Frente Feminista da USP

Coletivo Feminista Dandara – USP

Coletivo Feminista Marias Baderna – USP

Coletivo Feminista Lélia Gonzalez – USP

Coletiva Feminista Radical Manas Chicas

Coletivo Chute – ESPM

Coletivo BADERNA – Fortaleza-CE

Coletivo Anastácia Livre

Coletivo Anarcopunk Diversidade

Mulheres da FENED

FENED LGBT 

DCE – USP

Centro Acadêmico André da Rocha – Direito UFRGS

CATB – Direito Universidade Tiradentes

CA – Direito Universidade Católica de Pernambuco

CAD – Direito UESPI

PAR – Direito UFPR

Movimento Zoada – Direito UFPE

Coletivo Conteste – Direito UFPel

Cajuina

Coraje

Movimento Mulheres em Luta

ANEL (Assembleia Nacional dos Estudantes Livres)

Mulheres do Rompendo Amarras

Primavera Feminista

Levante Popular da Juventude

Consulta Popular

Mulheres do Levante!

Setorial de Mulheres do PSOL.

Coletivo Juntas

Germinal

Coletivo Levante!

Quilombo Raça e Classe

Qual o papel das feministas em meio às mobilizações?

Em meio à tantas mobilizações, recorrente é a seguinte pergunta: afinal, o que os brasileiros querem? Podemos pressupor pelos cartazes e faixas presentes nos atos, como: “fora PEC 37”; “fora corrupção”; “redução da tarifa”; “contra o ato médico”; “contra a Copa”. E, junto com estas bandeiras, a bandeira do Brasil.

O que isto significa? Significa que o povo na rua, autodenominado “gigante”, já entendeu quais são uns dos problemas do país e já percebeu que se unindo pode conseguir o que precisa. Mas como se dará essa união? Será que pela bandeira do Brasil? Até quando sermos brasileiros será a única forma de nos unirmos?

Temos que entender que ainda existem desigualdades entre os brasileiros. Desigualdades sociais, de gênero e de raça. Por exemplo: as mulheres brasileiras não estão inseridas na sociedade igual aos homens brasileiros. Desta forma, os direitos que reivindicamos talvez não sejam os mesmos que os dos homens. Isto porque passam despercebidos aos homens direitos que nunca lhe foram necessários.

Importante ressaltar as desigualdades, para que as reivindicações sejam melhores localizadas. Desta forma, estranho nos é um ato em que todos se envolvem pela mesma bandeira. A bandeira que as mulheres carregam, e isto devemos deixar claro, não é a mesma que a que os homens carregam.

Quando falamos de acesso a cidade, por exemplo, além de reivindicarmos tarifa zero, todos nós reivindicamos também ônibus e metrôs disponíveis 24 horas por dia. Porque sabemos que quando a disponibilidade se restringe ao horário comercial, nossa vida se restringe a apenas ao tempo em que trabalhamos.

Porém, ao mesmo tempo, sabemos que para nós mulheres, para termos o acesso a cidade, não basta termos disponibilidade de transporte público por tempo integral se ao mesmo tempo temos que ficar em casa para cuidar dos filhos e tratar dos afazeres domésticos (por falta de assistência estatal) ou se deixamos de sair por medo de sermos estupradas na rua por falta de segurança e políticas públicas.

Portanto, acesso a cidade, para nós, não se restringe a mobilidade urbana. Também tem a ver com políticas públicas como lavanderias públicas e creches, assim como segurança . Por isto nossa bandeira sempre vai além da que a sociedade patriarcal exige.

Assim como as mulheres são as mais atingidas pelos efeitos dos megaeventos, já que despejadas de suas casas junto com seus filhos, assim como serão seus corpos explorados pelos turistas e pelo Estado. Desta maneira, o “Fora Copa!” também vai para muito além do desvio de verba para saúde e educação. Para nós, mulheres, a Copa nos atinge diretamente.

Por isto é necessário irmos à rua, para dizer em alto e bom som que nem todos os brasileiros são iguais. O que a sociedade nos oferece é muito pouco pelo tanto que precisamos. Temos que ir além, termos que mostrar nossas caras. Temos que fazer o recorte de gênero nos movimentos e afirmar: sem feminismo, só haverá mudança para uma parcela da população. Que exijamos nossos direitos enquanto mulheres, antes do que brasileiras.

Nota sobre a circulação de vídeo de caso de estupro entre os estudantes da PUC-SP (e outras Faculdades de Direito)!

Estupro de vulnerável é o que caracteriza o vídeo que está sendo veiculado entre estudantes de direito da PUC-SP, USP e Mackenzie. As imagens mostram uma menina em estado inconsciente sendo estuprada por um homem enquanto seus amigos filmam e riem. Em dois minutos de vídeo que devem ter sido algumas horas de tortura assistimos os estupradores rirem enquanto manuseiam o corpo da menina inconsciente que é estuprada e violada repetidas vezes.

As informações que vem sendo veiculadas a respeito do vídeo é de que tal fato teria acontecido durante os jogos jurídicos ocorridos em Jundiaí no feriado da Páscoa. Como ainda restam dúvidas encaminhamos o vídeo para as autoridades, que já estão tomando providências para encontrar os responsáveis pela violência.

Enquanto Coletivo Feminista Yabá mas, principalmente enquanto mulheres, sentimos a necessidade de vir a público.

Não há palavras que descrevam os efeitos que uma violência desse nível causa na vida de uma mulher. É inadmissível que os estudantes de uma faculdade que acabaram de sofrer com a perda da aluna Viviane (vítima de violência em um caso ainda não solucionado) compartilhem em rede e se divirtam as custas de outro estupro. Assim, aos que riram, que fizeram piada, que enviaram o vídeo para seus colegas como se fosse mais um “divertido viral”, nós, mulheres do Coletivo Feminista Yabá repudiamos esta atitude!

Para aqueles que viram e não acharam nada demais ou que acreditam que a culpa é da mulher por estar embriagada, saibam que esta “brincadeira” é o que banaliza e naturaliza a violência! Fazemos um apelo: não se deixem levar pelo discurso que tenta justificar esse tipo de agressão utilizando-se de frases como “quem mandou estar bêbada!”. Será correto responsabilizar a vítima para justificar a responsabilidade do agressor? O vídeo deixa mais que claro quem é a vítima.

Para as mulheres que viram resta a nossa solidariedade, por lembrar que todas nós podemos um dia ser vítimas. Assistimos frequentemente nos jornais casos de estupro, mais do que nunca a nossa união é necessária, não podemos nos calar! Casos de violência como esses devem ser denunciados para que, quem sabe um dia o estupro seja algo impensável e todas nós possamos usar as roupas que quisermos, andar na rua em qualquer horário e bebermos sem medo!

Por fim, esse fato mostra de forma inquestionável a importância de nós mulheres nos organizarmos, não podemos deixar que fatos como esse se repitam, chega de Vivianes somos mulheres e exigimos respeito!

 

8 de março: Dia Internacional de LUTA das Mulheres

Hoje, dia 8 de março é dia internacional DE LUTA das mulheres. Há quase cem anos, ele surgiu em um contexto em que as mulheres foram protagonistas na luta por seus direitos- com destaque para o direito ao voto – como também personagens centrais na luta por outro projeto de sociedade, em que não existisse a exploração da classe trabalhadora, as precárias e desumanas condições de trabalho, a desigualdade entre homens e mulheres, e a miséria que assolava a maior parte da população. O 8 de março, mais do que relembrar um acontecimento heroico, resgata uma luta feminista heroica. Luta esta que ainda pulsa fortemente frente às demandas atuais.Com a fragmentação da sociedade em classes, e a hierarquização construída socialmente entre o homem e a mulher, entre branc@s e negr@s, a condição das mulheres pobres e negras traduzem de modo mais visível o sistema exploratório em que vivemos. Ainda hoje as mulheres recebem menos que os homens pelo desempenho da mesma função, ainda hoje são responsabilizadas pelas tarefas domésticas, e, portanto, obrigadas a uma dupla jornada de trabalho. Ainda hoje, sofrem cotidianamente com as precárias condições de trabalho e com a flexibilização dos direitos trabalhistas, intensificadas pelo processo de terceirização.

O fato de termos uma mulher na presidência não reverteu a histórica negligência do estado na criação de políticas públicas para as mulheres. Precisamos da coletivização dos trabalhos domésticos, com a criação de creches, restaurantes e lavanderias públicas; precisamos tratar a violência como algo que extrapola o ambiente doméstico e que não será resolvida pela mera punição penal do agressor; precisarmos ocupar o espaço público sem o ônus do assédio ou do estupro; precisamos de terra para viver no campo; precisamos de transportes públicos de qualidade; precisamos de moradia digna, de serviços de saúde integrais, precisamos de segurança e não de fardas e cassetetes.

A recente indicação do deputado Marco Feliciano (PSC) para a comissão de direitos humanos da Câmara dos Deputados reflete o quanto ainda está longe a efetivação dos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres, do direito à livre expressão sexual das lésbicas, dos gays, dos travestis, dos transexuais, a efetivação, enfim, do direito básico de serem vistos como gente.

Como um problema sistêmico que é, o machismo se irradia por toda a sociedade, inclusive na universidade. O ensino tecnicista e sexista neutraliza os conflitos de gênero e classe. A censura à pesquisa sobre temas como aborto indicam a que interesses deve servir a nossa educação. A dicotomização entre mulher estudante e mulher mãe exclui as mulheres do espaço universitário- o que se refletirá também em sua posição no mercado de trabalho- e as ” brincadeiras”, festas, músicas de baterias e trotes mostram a condição de objeto que nos é atribuída.

Neste contexto, a nós, mulheres estudantes, é mais do que necessário lutar por assistência estudantil ampla, como restaurante e moradia universitárias, cotas de xerox, transporte gratuito e creches. Da mesma forma, é fundamental reivindicar a implementação de cotas raciais e sociais para que possamos ressignificar o papel da universidade e romper com a elitização que a caracteriza.

A bandeira de reais 10% do PIB para a educação pública, de qualidade e gratuita, para todas e todos já! vem ao encontro destas demandas, surgindo como passo necessário rumo a uma educação verdadeiramente popular -e não simplesmente estatal-, laica e emancipadora. Uma educação que se volte aos anseios da sociedade e não à matemática do mercado; que seja crítica e não domesticada; que não seja machista, racista, homofóbica e classista. O projeto aprovado pela Câmara no ano passado não responde a estas demandas, uma vez que forja um investimento, para o prazo de 10 anos, irrealizável nos moldes como colocado, voltado para mesma educação tecnicista e privatista de hoje em dia.

Ao contrário do que ventila o discurso patriarcal, a luta feminista não é nem pode ser uma luta isolada: nossa emancipação pressupõe a emancipação de toda a sociedade. É dizer, a liberdade e autonomia das mulheres nunca será compatível com a existência do racismo, da homofobia, de classes sociais.

Dia 8 de março não é um dia de comemorar ser mulher, é dia de lembrar o papel de ser mulher. Sigamos resistindo.

“Nossa liberdade não será dada; será conquistada pelas mulheres na luta.”

nota

Nota de Solidariedade à Viviane Alves, estudante de direito da PUC-SP

O machismo mata todos os dias, o feminismo nunca matou ninguém 

 

A comunidade puquiana, no final do ano passado, surpreendeu-se com a dolorosa notícia da perda de uma de suas integrantes. Viviane Alves, então estudante do quarto ano de direito, interrompeu a vida em 03 dezembro de 2012, aos 21 anos, deixando saudades e dor em familiares e amigas/os.

Sua morte prematura hoje é objeto de investigação da Polícia Civil de São Paulo, que a partir da denúncia da mãe da jovem, busca descobrir a relação entre o suicídio e relatos da menina, a qual dizia sofrer intenso assédio do chefe e afirmou ter sido estuprada na festa de confraternização do escritório onde estagiava, o grande Machado, Meyer, Sendacz, Opice.

Viviane disse à mãe ter tomado duas taças de champagne e desde então lembrar-se apenas de alguns flashes, que, no entanto, lhe davam a certeza de ter sofrido uma violência sexual. Nos dias subseqüentes, encarou o quanto pode o tormento de viver à sombra desse horror.

Pouco antes da noticia de sua morte chegar aos jornais, ganhava repercussão internacional a violência sofrida por uma estudante em Nova Déli, na Índia, que morreu após ter sido estuprada e espancada por seis homens em um ônibus ao voltar para casa depois de um cinema. O fato foi motivo de revolta e mobilização da sociedade considerada a pior para uma mulher viver.

Poderíamos aqui citar diversos outros, milhares, centenas de milhares de casos de violência contra a existência digna e plena das mulheres que ocorrem no mundo todo a cada segundo. A despeito dos brados daqueles que defendem ter chegado ao fim a desigualdade de gênero, esses casos evidenciam a atualidade do machismo, logo, a necessidade da luta feminista.

Ser mulher é resistir!

Não ter direito a ir e vir, não ter direito a trabalhar com dignidade, não ter direito a se vestir como quiser, não ter direito a expressar sua sexualidade, não ter direito a ter seu corpo respeitado são exemplos de privações que caracterizam uma sociedade opressora para a existência das mulheres.

Quando se convive com estupro e assédio sexual e moral no trabalho é justamente a essas privações a que a mulher está submetida. Não que sejam “privilégios” delas, mas, sem dúvida, são as mulheres as que mais integram os altos números dos dados oficiais.

O fato de elas hoje realizarem outras tarefas além das domésticas, ocupando cada vez mais o “mercado de trabalho” não faz necessariamente com que elas deixem de ser vistas como inferiores aos homens, e, portanto, objeto de seus prazeres e desmandos.

Além disso, a divisão da sociedade em classes faz com que as mulheres pobres sofram ainda mais (e as mulheres pobres negras, ainda mais!), já que são as destinatárias dos trabalhos mais precarizados e dos salários mais baixos; já que possuem uma maior dependência de manutenção do vínculo empregatício estabelecido; já que não tem outra alternativa que não arcar com a negligência do Estado na garantia de saúde, transporte, educação, moradia, segurança e lazer.

Focando-se na mulher estagiária é fácil constatar sua vulnerabilidade. A sua condição de “aprendiz”, por si só, já lhe garante que seja vista como inferior, como alguém que deve receber, num movimento de uma só mão, os conhecimentos do sábio e experiente chefe (sim, ainda são os homens que ocupam a maioria dos cargos de chefia). Além disso, por estar no mais baixo degrau da escada do sucesso deve suar muito para manter em pé sua oportunidade de trabalho. Suar e, no mais das vezes, calar diante de assédio de chefe ou colega: é isto que lhe reserva sua condição de mulher.

Neste sentido, a indignação diante de uma violência sexual e/ou moral contra a mulher leva a uma indignação maior face ao atual estado de coisas, de modo que a busca pelo fim dessa realidade de horrores implica necessariamente na subversão desta ordem opressora.

Não nos calaremos!

O machismo não nasceu ontem, também não existe desde que o mundo é mundo. Nós mulheres não conquistamos tantos dos nossos direitos pela evolução natural da história, mas sim por muitas de nós terem tido a coragem de gritar basta! É este o primeiro passo para que possamos transformar algo.

Chama a atenção, neste sentido, a inércia da PUC-SP, em especial da Faculdade de Direito, que sequer lamentou publicamente a morte de uma de suas estudantes. É a postura que se espera de uma instituição que não se responsabiliza pela fiscalização do estágio, que não desenvolve mecanismos efetivos de combate às opressões, que não prioriza o estudo crítico da sociedade e do direito.

Não só a Universidade silencia diante dessa realidade, como também a mídia, que vez ou outra noticia um caso como uma terrível exceção, configurando-se ambas em pilastras essenciais para a perpetuação do status quo.

De outro lado, há um silêncio sofrido, um grito abafado pela cultura machista e pelo moralismo: o grito da mulher violentada. Não raro a resposta dada aquela que reclama do estupro ou do assédio é a sua culpabilização – “quem mandou andar sozinha a essa hora?”, “ta vendo no que dá beber demais?”, “mas com essa roupa decotada você estava pedindo, né?”.

A propósito, a Marcha das Vadias, que se iniciou no Canadá, foi motivada justamente pela indignação das mulheres diante dessa situação. O nome remete à declaração de um policial a uma menina que pretendia denunciar o estupro sofrido: “as mulheres devem evitar se vestir como vagabundas, para não se tornarem vítimas de ataques sexuais.”

Não é apenas a polícia canadense, nem a polícia indiana- que propõe às vítimas se casarem com seus agressores-, que partilham dessa concepção. No Brasil, a lógica da culpabilização da vítima também é responsável pelas milhares de denúncias não feitas, que se dá também muito em função de as mulheres não contarem com um aparato interdisciplinar, psicológico, de saúde e de assistência social para se encorajarem a procurar o Estado.

Nós, do Coletivo Feminista Yabá, acreditamos que o principal instrumento contra esta realidade é a organização das mulheres em torno da pauta que lhes afeta, e de todas aquelas que a ela se conectam num todo chamado sociedade. Lutamos por uma outra, em que mulheres e homens sejam de fato livres.

Lamentamos a morte de Viviane Alves e nos solidarizamos pela dor de familiares e amig@s.

Viviane Alves, presente!